Do Acontecimento

José Bragança de Miranda

Do Acontecimento

© Carlos Lança

Setembro

28/09 ter 18:30

RIVOLIPequeno Auditório

Conferência
Universidade Lusófona do Porto
Preço Entrada gratuita
Classificação etária 6+
Numa época do cálculo, da regra e da prevenção surge, repentinamente, o inesperado, algo que interrompe o curso das coisas e ameaça o discorrer da vida. Numa espécie de paradoxo, quanto mais se antecipa o acidente mais este, ao surgir, se apresenta como catastrófico e intratável. Entende-se que, neste contexto, a ideia de Acontecimento, contingente e imprevisível, se tenha vindo a impor para dar conta de forças que excedem as formas históricas, venham elas da natureza, como uma catástrofe, ou do interior da história que fazemos, disseminadas como um incêndio ou uma epidemia. Existe um certo pânico perante esse excesso de força e a debilidade das formas, ainda que boa parte da cultura humana se tenha baseado na espera por um acontecimento decisivo, uma revolução, através da qual a paz ou a justiça possam vencer definitivamente. Disso, uns são testemunhas, outros anunciam, outros, cansados de esperar, perdem toda a esperança. Mas é apenas pela arte, pelo pensamento e pela técnica que se responde ao Acontecimento e se cria o labirinto onde, como com o antigo Minotauro, podemos estar próximos dele e da sua potência, sem a ilusão de o anular ou controlar. 


A natureza paradoxal do acontecimento

Estamos conformados com uma situação em que existe uma crescente rigidez da vida, da qual se tende a controlar os mínimos movimentos, circulações e transmissões. Parece estar em curso uma lógica de controlo, articulando cálculo, antecipação e gestão, num incessante trabalho de formatação da vida. Esta situação tem vindo a suscitar uma série de teorias do dispositivo, da mobilização geral ou do aparelhamento, em si mesmo muito influentes, mas que tendem a ser demasiado gerais, mimetizando o fenómeno que procuram criticar. Na ideia de um fechamento do mundo ecoa ainda a antiga teologia política e os seus regimes providenciais. Ora, é neste quadro que é preciso entender a ideia de acontecimento, que garante uma abertura necessária, embora paradoxal. Sendo o acontecimento algo contingente e imprevisível, da ordem da “aconceptualidade”, para usarmos um termo de Blumenberg, afigura-se impossível uma teoria capaz de conceptualizar e, portanto, controlar ou produzir. Aliás, o próprio acontecimento, se catastrófico, tende a suscitar a necessidade de controlo, o qual que se originaria naquilo mesmo que o nega. Nesta lógica circular, a reflexão sobre o acontecimento é algo decisivo para o pensamento contemporâneo.


José Bragança de Miranda é doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa (1990), com agregação em Teoria da Cultura (2000) na mesma universidade. É professor associado do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, colaborando desde 1992 como professor catedrático convidado na Universidade Lusófona de Lisboa. Tem lecionado nas áreas da Teoria da Cultura e das Artes Contemporâneas, da Teoria dos Media e da Cibercultura. É investigador do Instituto de Comunicação da Nova (ICNOVA). É autor de vários livros, entre os quais: Analítica da Actualidade, Teoria da Cultura, Corpo e Imagem, Política e Modernidade, entre outros.

Setembro

28/09 ter 18:30

RIVOLIPequeno Auditório

Conferência
Universidade Lusófona do Porto
Preço Entrada gratuita
Classificação etária 6+